Sexta-feira, Maio 02, 2008

Cartas nunca entregues

O que fazer com uma carta que não vai ser entregue ao seu destinatário? Reparei nas correspondências escritas por mim e nunca enviadas. São poucas, nada absurdo, mas a simples existência delas me causa desconforto. Pedidos de desculpas, queixas, declarações apaixonadas, comentários cretinos ou dramas, todos intencionalmente extraviados.

Escrever as cartas traz alívio, sem dúvida. Mas a eficácia desse extravasamento fica comprometida quando os recados não chegam ao seu destino. Não adianta de muita coisa dizer algo que não será ouvido. Ou lido, no caso.

Hoje, revendo algumas das cartas, fico na dúvida se foi realmente melhor nunca entregá-las. Como consolo, tenho plena convicção de que outras realmente tiveram melhor destino ficando por aqui mesmo.

Estranhas lembranças estas cartas. E olha que tem coisa recente, mas parece pertencer a passado longínquo. Ou talvez eu apenas queira fazer com que pareçam coisas ultrapassadas.

Bem, como sei que não produzi nada tão interessante quanto Carta ao Pai, de Franz Kafka, decidi me livrar destes papéis. Quer dizer, deixei duas guardadas. Quem sabe ainda dá tempo e, mais importante, ainda vale a pena?

Quarta-feira, Abril 23, 2008

Bom demais.

Tenho a sensação de que ando meio retardado, porque tenho considerado tudo excessivamente positivo. Sempre achei que pessoas sorridentes demais e satisfeitas demais tinha problemas mentais. Não é normal.

Quando me perguntam se estou bem, respondo que está tudo ótimo. Sinceramente, não me recordo da última vez em que defini meu estado como ótimo. Talvez eu tivesse uns oito anos de idade e estivesse na frente da televisão vendo Tartarugas Ninja e comendo geléia de mocotó Imbasa.

Habitualmente, achava que sempre tinha algo de errado quando as coisas estavam aparentemente muito certas. Hoje, nem desconfio mais; tenho a convicção de que está tudo muito certo, até quando faço a coisa errada.

Aí me perguntam por que está “tudo ótimo”. Pareço ainda mais retardado, porque não tenho idéia clara do que há de tão bom assim. Apenas tenho achado a vida bem divertida e carrego um sorriso meio débil.

Mas se fosse permitido pedir algo mais nesse “nada demais” que tanto me satisfaz ultimamente, pediria uns probleminhas ou pequenas desgraças. Assim, de leve. Porque ser alguém alto-astral é meio chato. Um pouco de depreciação, para tornar tudo mais interessante.

Sábado, Abril 19, 2008

Voltando

Sempre achei que para ter um blogue eu teria de escrever coisas que tivessem um mínimo de relevância para quem ocasionalmente aparecesse por aqui. A função não é compartilhar minha vida pessoal; se o quisesse, escreveria tal qual um diário. E bem sem que minha vida pouco ou nada despertaria atenção de um provável leitor.

O que eu tento aqui é escrever qualquer coisa com um mínimo de significado pra você, seja um conhecido meu ou não. Causar, ao menos, um leve prazer com a leitura. Arrancar alguma lembrança, despertar afinidade ou, quem sabe, um sorriso (este último, minha reação favorita). Mas qualquer reação vale, até mesmo apatia.

Aos bem-aventurados que continuaram me visitando durante esse enorme hiato, obrigado, de verdade. Estou de volta.

Segunda-feira, Março 17, 2008

Desprazeres

Tão logo acordo e abro os olhos, vejo um gringo de quase 1,90m só de cueca. E, Deus, ele está com ereção matinal. Não merecia ver isso, por todos os meus pecados.

Fico a me perguntar por que a maioria dos alberguistas simplesmente não se troca no banheiro. Ao menos, acho que o cara podia esperar debaixo do lençol até sua ereção matinal passar. O mais pertubador é que ele vai até a varanda e fica olhando a rua. Sem acrescentar nenhuma peça de roupa. Apenas acende um cigarro, mas a fumaça não é suficiente para esconder a desagradável visão.

Aposto que se um algum dia eu me hospedar num albergue misto eu não verei mulheres em trajes sumários desfilando na minha frente.

Caligrafia


Não repare a péssima qualidade da imagem. Não tinha scanner por perto, tirei uma foto, o quarto do albergue é meio escuro e este é meu caderno de viagens do Lonely Planet.

Terça-feira, Fevereiro 19, 2008

Toma um cóccix!

Não aceito que cóccix seja nome de uma parte de nosso corpo. Sim, aquele ossinho no final da coluna vertebral, também conhecido pelos populares como mucumbu (aí, sim, nome apropriado).
Cóccix é palavra esquisita demais. Pra mim, deveria ser nome de remédio. Antiinflamatório. Daqueles para dor braba, em casos extremos, quando o dorflex não resolve de jeito nenhum. Eu confiaria num remédio com esse nome. Parece moderno e eficiente.

Consigo imaginar perfeitamente a situação:
- Mulher, pra tu ter idéia, a dor só passou depois que eu tomei um cóccix.
- Afe, devia tá doendo muito mesmo. Só tomo cóccix quando não estou agüentando mesmo.

Não é crível?

Cóccix seria remédio receitado. E bastante caro, não é para qualquer um.
- Ih, tô com uma dor danada! Me dá um cóccix, por favor!?
- Nunca, só tenho unzinho, nunca se sabe quando vou precisar de verdade dele.

Ninguém dá o cóccix de graça.

*Aliás, alguém sabe como é o plural de cóccix? Tudo bem que provavelmente ninguém na vida precisou se referir a mais de um, como: “ai meu Deus, olha só que coisa mais lindas esses cóccixes(?)”. Afinal, a única oportunidade de tecer um comentário desse seria numa orgia ou coisa assim e não imagino pessoas preocupadas em falar do cóccix alheio numa hora dessas. Enfim, se alguém souber, fico grato.

Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008

Aos senhores passageiros

Não raro se escuta alguém dizer “nossa, viajei em fulano(a)”. Coisa comum, com a escassez de pessoas interessantes, você encontra alguém um pouquinho diferente e já viaja nela. Aí mora o perigo.

Pegue seu passaporte de relacionamentos e repare em quantas dessas viagens você já embarcou. Até pessoas menos viajadas têm uma boa quantidade de páginas carimbadas. A maioria de nós é nômade no campo afetivo, poucos são os que conseguem se fixar num lugar. Afinal, parece excitante a idéia de conhecer culturas novas, costumes diferentes, entrar em contato com novas línguas e coisas assim.

Mas pense. Quantas dessas maravilhosas viagens que prometiam um roteiro empolgante e exótico não se revelaram excursões mixurucas ou, pior, eram grandes roubadas? Daquelas que você encara um serviço de bordo ruim ou tem a bagagem extraviada.

Ainda assim, continuamos viajando, sempre com a mala em mãos.

Alguns destinos não valem nem a taxa de embarque. Desconfie daquelas promoções imperdíveis que aparecem nos finais de semana. Antes de viajar em alguém, procure referências de quem já conhece o local ou se informe com um agente de viagens experiente. Discuta bem o trajeto com o piloto Coração e com a comissária de bordo Razão.

Toda atenção no check-in e, aos que se aventurarem, boa viagem.

Sexta-feira, Fevereiro 08, 2008

Que tem de bom no dia?

Acordar bem-humorado é uma anormalidade. Mesmo não achando lá muita graça em dormir, não entendo como alguém consegue sorrir após levantar da cama. Estou ficando rabugento já aos 23 anos. E, olhando direitinho no espelho agora de manhã, pareço não ter apenas 23. Tento amenizar as coisas dando um sorriso pro amigo de vidro, mas e vejo essas marcas ao redor dos olhos. Tchau sorriso. E, além do mais, estou ficando careca.

Ainda tenho a cara e os sinais da quarta-feira de cinzas: garganta inflamada, dor de cabeça e gastrite. Chá de paracetamol com mel, um buscopan e pastilha, fora os sucrilhos e torradinhas. Das mazelas, pelo menos a fome matinal passa.

Menos irritado, dou uma olhada no jornal. “Chineses rezam por proteção no Ano do Rato”. É, rezem bastante, porque um ano do RATO não pode ser coisa boa. Aliás, com os animais do zodíaco chinês fica mesmo complicado. Até anteontem era ano do porco e logo me vem a imagem do Babe, o porquinho atrapalhado. Calafrios ao lembrar da voz demoníaca daquele suíno. É, talvez o ano do rato seja menos mal.

Bem, vou escovar os dentes. Que eu fique enrugado, careca e rabugento. Mas banguela é uma barra. Nunca que vou dormir com uma dentadura boiando num copo de água na cabeceira.

Quinta-feira, Janeiro 31, 2008

Seu Abílio

Seu Abílio era um homem desses que não se vê mais hoje em dia, um tipo tão raro nos anos 2000 quanto seu nome. Morreu não sei nem mais quanto tempo faz; mais de dez anos, menos de 15, creio. Eu era bem novo quando isso aconteceu e esqueci da data de sua partida, mais por não querer lembrar disso do que por displicência infantil.

O que lembro e sei é que gostava muito dele. Já o conheci velho, claro, como há de ser com todo avô. Era magro e alto, já ficando encurvado pela idade. Tinha cabelos brancos bem finos, que usava de lado. Usava uma capa preta e fumava bastante. Inesquecível aquela figura alta de sobretudo preto com o cigarro acesso naquela escuridão de cidade do interior.

Era barbeiro, mas sua barba parecia sempre estar por fazer. O beijo do avô sempre me arranhava a face, coisa que eu não gostava muito. Mas eu logo esquecia daquele ardor chato no rosto quando ele me contava uma piada. Tinha sempre uma na ponta da língua, coisa incrível, nunca se repetia.

Aliás, Abílio morreu contando uma piada que agora me esqueci. Era uma daquelas clássicas sobre a chegada de alguém no céu. E me deu uma saudade dele agora de noite, enquanto brinco com sua antiga bengala.

Segunda-feira, Janeiro 28, 2008

Pra não esquecer

Pelo menos uma vez por semana encontro a vizinha do andar de baixo no térreo do prédio. “Nunca mais lhe vi”, me diz a senhorinha, sempre, mesmo que tenha me visto no dia anterior. Ela tem Alzheimer.

Às vezes ela pergunta do trabalho no jornal (que não tenho mais) e de algumas outras coisas as quais também não mais tenho. Uma vez expliquei superficialmente que o tudo sobre o qual ela perguntava tinha virado nada. Tempos difíceis.

Mas não adianta, ela não lembra das minhas observações e volta a me perguntar. E a dizer que nunca mais me viu. Entro no clima e digo “é verdade, tenho trabalhado muito, por isso quase não nos vemos” ou “sim, está tudo bem”.

Causava certo desconforto esses diálogos. Mas pensando bem agora, ela tem memória das melhores coisas que eu vivia até há pouco. Qual a razão de tentar explicar o hoje que anda tão insosso?Era bom. Melhor deixar ela com essas lembranças sobre mim, muito mais interessantes.

Sexta-feira, Janeiro 25, 2008

Folia maldita

Pessoa atípica (e antipática também) que sou, nunca gostei de carnaval, cerveja e futebol, grandes preferências nacionais. Não sei bem se realmente sou pouco afeito a essas coisas ou se o abuso surgiu de uma tentativa de querer ser alguém diferente; se simula tanta coisa no decorrer do tempo que às vezes torna-se difícil saber o que é ou não da nossa natureza.

Mas acho que não gosto mesmo do carnaval, embora nos últimos anos venha empreendendo esforços para ser mais sociável no período. É difícil.

Socializar-se no carnaval não significa apenas sair de casa, inclui atitudes como:

- achar divertido aquele roça-roça em ladeiras lotadas, num sol escaldante.
- esboçar sorrisos para as pessoas.
- não me chatear com o cara que inevitavelmente vai derramar cerveja em mim.
- desviar das periguetes que se jogam.
- relevar o fedor de urina nas ruas.
- não linchar o guri que joga água suja e gelada na minha cabeça.
- escutar Vassourinhas a cada esquina.
- aturar as apalpadas e cutucões (sobretudo as praticadas por seres do gênero masculino).
- suportar os saradões descamisados (e, quase sempre, suados).
- etc.

Carnaval é mais uma prova da capacidade do humano superar as adversidades, mais especificamente, sua capacidade de se divertir com elas. Continua não me parecendo um momento propício para a diversão. Vai entender.

Terça-feira, Janeiro 15, 2008

Recesso

O autor encontra-se de férias no balneário de Angra dos Reis, como todo emergente de novela das oito.

Quinta-feira, Dezembro 27, 2007

Tempo, tempo.

É batata. Chega dezembro e começo a escutar pessoas falando que o ano foi péssimo, dos piores vividos por eles. Quase sempre, a queixa é seguida de um “espero que o próximo ano seja melhor”. Tenho a impressão de que todos os anos têm sido horríveis e estão piorando gradativamente. Quase ninguém diz que o ano foi maravilhoso ou divertido. Ainda assim, acreditam em dias melhores.

Mas não é a virada da folhinha que vai mudar a vida de ninguém. Não vai melhorar.

Há quem diga que sou amargo e pessimista, que falo coisas assim por ressentimento. Sim, posso ser tudo isso, mas não é razão para descrença num futuro próspero. Nem muito menos recorrerei ao chavão “sou realista”. Nada disso.

Não estamos acostumados a lidar com o que nos desagrada. Passam-se os anos e nossas pequenas tragédias diárias, dramas e aflições aumentam em número e intensidade. E mesmo com essa eterna repetição de mazelas, gente continua torcendo para que as coisas melhorem. É irreal.

Supostamente, tenho mil motivos para reclamar de 2007. Nunca vivi em tão pouco tempo essa combinação de perdas, desentendimentos, tristezas e frustrações que experimentei recentemente, sobretudo no último semestre. Tive momentos bem ruins, devo ter chorado o suficiente para encher uma cisterna.

Isso é a vida. Feia e instável. Com o tempo e um jeitinho, você começa a gosta dela. Não adianta reclamar, ela não muda. É como aquelas pessoas que não tomam jeito, por mais que reclamemos de seus defeitos. Alguém tem de ceder. Eu cedi. E estamos muito bem, obrigado. Reparo bem mais nas coisas boas acontecendo ao redor.

Próximo ano vai ser pior. Mas isso não quer dizer que será ruim.

Para quem acredita em calendário, feliz ano-novo. Até 2008.

Sábado, Dezembro 22, 2007

Mensagem recebida

Já há um bocado de tempo as companhias de telefonia móvel lideram o ranking de reclamações do Procon. Serviços ruins, cobranças indevidas e demora na resolução de problemas são as principais queixas. É tudo verdade, mas o pior mesmo são as mensagens de propaganda que chegam direto.

Por mais que a experiência me mostre o contrário, sempre acho que aquele barulhinho feito pelo telefone celular é pra me alertar o recebimento de uma mensagem escrita por um humano, exclusivamente para mim. Tuuu, toca o aparelho e vou correndo para ver quem me escreve. Decepção: “Clientes TIM tem mais vantagens na Pizza Hut! Ligando do seu TIM, vc compra uma Cheesy Pop via delivery (4003-3043) e ganha uma pizza media. Valido de seg. a sexta”. Nem pra escrever a palavra “você” por inteiro eles se dão ao trabalho. Acentuação, nem se fala.

Sexta-feira à noite, chega uma mensagem. Convite para sair? Não, uma promoção “imperdível” para ganhar 25 minutos grátis, por mês, em ligações.

O Procon aceita reclamações por conta das falsas expectativas que a TIM provoca em mim quase que diariamente? Mereço uma indenização milionária.

Sexta-feira, Novembro 30, 2007

Corrente.

Agora eu não me sinto mais um excluído da blogosfera. André, do Cataclisma14, me incluiu numa corrente de blogues e pediu para eu citar cinco coisas que eu sei fazer e todo mundo também sabe. Vou quebrar a corrente porque acho que passaria vexame por não ser muito entrosado com a tuma dos blogues.

Ah, já sei. Vou convidar José Dirceu, Marcelo Tas, Bruna Surfistinha, Neil Gaiman e Fernando Meirelles para darem seus pitacos. Se passarem por aqui, estão intimados.

Cinco coisas que eu sei fazer e todo mundo também sabe:

1 – Ser roubado – É difícil passar ileso. Uma hora, alguém vai te assaltar Eu mesmo já fui assaltado mais de dez vezes, sendo que em determinado ano foram seis ocorrências. Já levaram de tudo: celular, carteira, mochila, camisa e boné (num tempo imemoriável quando se usavam bonés de times de basquete americano). Certa vez um ladrão teve a maldade de levar meu lanche que consistia num Toddynho e um pacote de Rufles. Pura maldade.

2 – Ser tapeado por vendedores – Variação da primeira habilidade, mas não envolve violência física, apenas a lábia. Vendedores são seus inimigos, por mais que eles tentem ser simpáticos. Fazem promoções do tipo “um é R$ 2 e dois é R$ 4” e você acaba pensando que fez bom negócio. E não, aquela camisa não ficou uma maravilha em você.

3 – Ovos mexidos – Qualquer um, de dementes a portadores de Mal de Parkinson, sabe fazer ovos mexidos, esta grande maravilha da gastronomia. Sem este insubstituível talento, as férias em casas de praia seriam muito mais complicadas. Ovo mexido pra comer com pão no café da manhã, pra dar sustância ao Miojo no almoço e novamente pra colocar no pão durante o jantar (isso se ainda houver pão).

4 – Insultar – É verdade que as formas mais simples de ofensa são acessíveis a todos, mas para realizar esta atividade de forma competente é necessária uma boa dose de criatividade e sofisticação. Quem é chamado um dia de filho da puta esquece logo. Mas experimente xingar o mesmo de filho de genitora promíscua. Ele dificilmente esquecerá e, quem sabe, até terá orgulho.

5 - Lamentar-se – “Eu não deveria ter gastando tanto com uma samba-canção de seda” ou “nunca que eu deveria ter dado para ele” são pensamentos que, respectivamente (ou não) assolam homens e mulheres. A impossibilidade de corrigir feitos pouco louváveis resulta sempre em lamúria. Não há como escapar. Até hoje eu me lamento por coisas feitas muitos anos atrás, como ter ido ver Casamento Grego no cinema, definitivamente, o pior filme da história da humanidade.

Quinta-feira, Novembro 22, 2007

Boca em obras

Certos procedimentos odontológicos deveriam ser feitos com anestesia geral. Não tanto pela dor, mas pelo incômodo que causam. Fui ao dentista para tratar uma cárie num dente lá do fundão da boca. Após duas injeções de anestesia local, nem sente direito a moça cutucando as coisas. Ela poderia rasgar minha bochecha que eu só sentiria depois que o sangue escorresse até o meu pescoço.

É, a anestesia funciona. Mas que coisa desagradável é aquela furadeira de dentista. Faz um barulho repetitivo, parece uma reforma acontecendo dentro da boca. E reforma é sempre uma coisa chata: faz sujeira e atrapalha o funcionamento das coisas. Claro que dentistas costumam ser mais delicados e rápidos que pedreiros, mas ainda assim causam transtornos. E, o pior, dentro de você.

Com o passar dos minutos se sente cada vez mais o inchaço na metade do rosto onde o dente está localizado. Me sinto como um baiacu inflado parcialmente. Não é bonito.

Adoraria que me dessem uma anestesia geral. Dormir sem me incomodar com o barulho, os dedos passeando pela minha boca ou com meia face inchada. Porque nada pior do que sair do dentista falando com a língua mole e jeitinho de quem acabou de ter um derrame e perdeu metade dos movimentos faciais.